A estrada que ligava Aracaju a Simão Dias parecia mais curta quando Dant não tinha medo do que encontraria no fim dela.
Na primeira vez em que fizera aquela viagem, procurava quatro dias de festa, música e descanso. Voltou para casa com uma mordida no ombro esquerdo, uma maldição que ainda não compreendia e lembranças que preferia esquecer.
Agora, meses depois, retornava por vontade própria.
Aurora dormia no banco traseiro, presa ao peitoral de segurança. A cachorrinha branca e caramelo havia passado boa parte do caminho observando a paisagem, mas desistira depois de algumas curvas e se acomodara sobre a pequena manta.
Dant diminuiu a velocidade ao avistar as primeiras casas da cidade.
Havia ensaiado aquela conversa durante a viagem inteira. Queria contar a Babizinha como tinha sido sua primeira investigação sozinho, no Conjunto Augusto Franco. Queria falar de Marta, a mulher que aparecia dentro dos carros, do irmão que ela acreditava estar morrendo e da maneira como tudo terminara.
Mas havia outro motivo para estar ali.
Um motivo que, nas noites mais silenciosas, ainda o fazia acordar com a mão apertada sobre o ombro.
O lobisomem.
A criatura que o atacara naquela última noite de festa continuava sem nome, sem rosto humano e sem paradeiro conhecido.
E Dant começava a pensar que talvez tivesse passado tempo demais tentando esquecer a pergunta mais importante.
Quem era aquele homem antes de se transformar?
Quando passou pela Praça Barão de Santa Rosa, reconheceu a fachada da igreja e algumas ruas próximas. O movimento do comércio, as motocicletas e as conversas nas calçadas davam à cidade uma normalidade quase ofensiva.
Era difícil aceitar que um lugar pudesse continuar tão comum depois de mudar a vida de alguém para sempre.
Aurora despertou quando ele estacionou.
"Chegamos, menina."
Ela espreguiçou as patas e soltou um pequeno ganido.
"Eu sei. Também tô querendo sair desse carro."
Dant desceu, colocou a guia nela e seguiu até a casa onde Babizinha havia combinado de encontrá-lo.
Ela abriu a porta antes da segunda batida.
Estava com os cabelos escuros soltos até os ombros, os óculos de armação fina e uma expressão cansada. Ainda usava roupas simples que escolhera depois de sair do trabalho no hospital.
"Olha só quem resolveu aparecer."
"Eu tinha avisado."
"Avisou que vinha. Não que ia chegar com essa cara de quem não dorme faz três dias."
"Essa é minha cara normal."
"Então piorou."
Dant sorriu.
Aurora não teve paciência para o reencontro. Avançou até onde a guia permitia, abanando a cauda, e começou a farejar os sapatos de Babizinha.
"Minha menina!"
Ela se abaixou para acariciá-la, recebendo uma lambida na mão.
"Você, pelo menos, parece feliz de me ver."
"Eu também tô feliz."
"Não parece."
Dant pensou numa resposta, mas acabou rindo.
Por alguns segundos, o peso daquela viagem diminuiu.
Babizinha abriu espaço para os dois entrarem.
Na mesa da cozinha, havia café recém-passado, um prato de bolachas e três livros antigos que não pareciam pertencer à mesma época. Um deles estava aberto sobre folhas amareladas, cuidadosamente protegidas por papel.
Dant percebeu que ela já sabia o assunto que acabariam discutindo.
"Você encontrou alguma coisa?"
"Encontrei algumas. Mas primeiro quero saber o que aconteceu em Aracaju."
Ele puxou uma cadeira.
"Essa história é meio complicada."
"Você costuma escolher as fáceis?"
"Agora que você falou, acho que não."
Babizinha se sentou diante dele. Aurora deitou perto da porta, onde entrava uma corrente de ar fresco.
Dant começou pelo princípio.
Contou sobre as duas mortes estranhas no Augusto Franco, os relatos de uma mulher loira que aparecia dentro dos carros e o perfume de flores que surgia mesmo quando não havia ninguém por perto.
Falou do antigo taxista que lhe dera uma pista, do acidente ocorrido anos antes e da descoberta de que a aparição procurava o irmão.
Babizinha o ouviu sem interromper até ele mencionar o encontro junto ao canal.
"Você ficou sozinho perto de uma passagem de água, à noite, esperando uma aparição entrar no carro?"
"Eu tinha a Aurora."
Ela ergueu uma sobrancelha.
"Dant."
"Tá. Falando assim parece pior."
"Porque foi pior."
Ele admitiu o erro e contou como quase caíra numa abertura de drenagem ao confundir uma lembrança sobrenatural com uma enxurrada verdadeira.
"Se Aurora não tivesse latido, eu tinha continuado andando."
Babizinha olhou para a cachorrinha, que roía distraidamente um brinquedo.
"Ela ganhou um presente depois disso?"
"Ganhou dois."
"Pouco."
Dant continuou até chegar à noite em que levara Davi ao encontro da irmã.
Descreveu a fotografia antiga, a voz do homem tremendo e a expressão da mulher quando finalmente percebeu que o menino que tentava salvar havia crescido.
Quando terminou, Babizinha ficou algum tempo olhando para a xícara.
"Então você não precisou combater o fantasma."
"Precisei entender o que ela queria."
"Foi uma boa decisão."
"Quase morri tomando essa boa decisão."
"Uma coisa não elimina a outra."
Dant apoiou os braços na mesa.
"Eu fiquei pensando naquilo que você me ensinou. Que nem toda criatura quer machucar alguém."
"Mas algumas querem."
"Eu sei."
Ele desviou os olhos.
"Tem uma que eu conheço muito bem."
Babizinha não perguntou qual.
Os dois sabiam.
∗ ∗ ∗
Ela retirou um dos livros da mesa e o colocou diante dele.
O volume tinha as bordas desgastadas e algumas páginas soltas. Entre elas havia anotações manuscritas, feitas em diferentes épocas. Dant reconheceu a organização cuidadosa de alguém acostumado a registrar detalhes.
"São os cadernos do seu avô?"
"Alguns. Outros são livros que ele estudava. Eu estava procurando uma anotação antiga e acabei voltando a pesquisar lobisomens."
"Encontrou alguma cura?"
A pergunta saiu mais depressa do que Dant pretendia.
Babizinha demorou um instante para responder.
"Ainda não."
Ele assentiu, tentando disfarçar a decepção.
"Mas encontrei uma coisa que pode ser tão importante quanto."
Ela virou algumas folhas e mostrou um nome anotado ao lado de uma referência francesa.
Bisclavret.
Dant tentou pronunciá-lo.
"Isso é nome de pessoa ou de remédio?"
"De uma história medieval."
"Então já começamos mal."
"Escute primeiro."
Babizinha explicou que, no final do século XII, uma escritora conhecida como Marie de France havia registrado a história de um nobre que desaparecia durante três dias de cada semana.
O homem não estava fugindo da esposa nem mantendo outra vida.
Ele se transformava em lobo.
"Até aí é o que eu já conheço", Dant comentou.
"Não exatamente. Na história, ele continua entendendo as pessoas. Reconhece quem o ajuda e demonstra lealdade. A forma é de lobo, mas ele não perde tudo o que o torna humano."
Dant ficou imóvel.
"Ele conseguia se controlar?"
"Em grande parte, sim, pelo que a narrativa mostra."
"E três dias por semana?"
"Isso mesmo."
"Não só na lua cheia?"
"Não só na lua cheia."
Dant encarou a página.
Desde sua primeira transformação, carregava lembranças quebradas: uma porta reforçada, o gosto metálico na boca, a voz de Babizinha tentando alcançá-lo e depois um vazio difícil de explicar.
Havia noites em que temia o retorno daquilo mais do que temia qualquer criatura.
"Então é possível", murmurou.
"Na história, era. Mas não sabemos se a sua condição funciona da mesma maneira."
Ela puxou outro livro, aberto numa passagem sobre a Irlanda medieval.
"Também existe a história dos lobisomens de Ossory. Um escritor chamado Giraldo de Gales registrou o relato de um homem e uma mulher obrigados a viver na forma de lobos durante anos."
"Sete anos", Dant leu numa das anotações.
"Isso. Na narrativa, um deles conversa com um sacerdote. Pede ajuda para a companheira, que está morrendo. Continua raciocinando e se preocupando com outra pessoa."
Dant passou a mão pelo rosto.
"Um lobisomem pedindo ajuda em vez de atacando?"
"Exatamente."
Ele pensou no fantasma do Augusto Franco.
Uma mulher assustando motoristas porque não compreendia que sua tentativa de salvar o irmão terminara havia muito tempo.
Quantas criaturas, imaginou, seriam consideradas monstros simplesmente porque ninguém sobrevivera tempo suficiente para ouvi-las?
Babizinha abriu uma terceira referência.
"E tem um caso ainda mais estranho."
"Mais estranho que um lobo conversando com padre?"
"Um homem que dizia ser lobisomem e que foi interrogado por um tribunal em 1692, na Livônia."
Ela contou a história de Thiess, um homem já idoso que afirmava se transformar em determinadas épocas do ano. Segundo seu próprio depoimento, ele e outros lobisomens enfrentavam forças malignas para recuperar aquilo que havia sido roubado das colheitas.
Dant franziu a testa.
"Quer dizer que ele se considerava um defensor das pessoas?"
"É o que ele afirmava. Os juízes não gostaram nem um pouco da explicação."
"Imagino."
"Mas repara numa coisa. Essas histórias são de lugares e épocas diferentes. Uma fala de transformação semanal. Outra, de anos inteiros na forma animal. E outra, de noites específicas do calendário."
"Sem a lua cheia mandar em tudo."
"Sem uma regra única de lua cheia."
Dant se recostou.
Pela primeira vez em muito tempo, imaginou a própria transformação sem pensar imediatamente em grades, ferimentos e morte.
"Se um deles conseguia reconhecer as pessoas, talvez eu consiga reconhecer você."
Babizinha ficou séria.
"Você já reconheceu alguma coisa."
"Como assim?"
"Na primeira vez, quando eu chamei seu nome, você parou por um instante."
Dant tentou recuperar a lembrança.
Não conseguiu.
"Eu não lembro disso."
"Eu sei. Por isso não quero transformar um segundo de hesitação numa promessa."
Ela fechou o livro devagar.
"Mas também não vou fingir que aquele segundo não aconteceu."
Ele olhou para as próprias mãos.
"Você acha que um dia eu posso conseguir escolher?"
"O que fazer quando estiver transformado?"
"Isso."
Babizinha sustentou seu olhar.
"Eu acho que vale a pena descobrir."
A esperança surgiu pequena, desconfortável, quase dolorosa.
Dant havia se acostumado tanto a esperar o pior que não sabia o que fazer com a possibilidade de existir outra saída.
∗ ∗ ∗
O assunto seguinte estava separado dos demais por uma folha dobrada.
No alto, Babizinha havia escrito duas palavras:
JOÃO VALENTIM.

Dant leu o nome em silêncio.
"Quem é?"
"Alguém de quem eu ouvi falar quando era mais nova. Meu avô também tinha algumas anotações sobre ele."
"Caçador?"
"Não. Pelo menos não no sentido que você está pensando."
Ela apontou para o registro.
"João Valentim dos Santos. Uma figura muito conhecida nas histórias do sertão sergipano, principalmente na região de Monte Alegre e Nossa Senhora da Glória."
Dant aproximou a cadeira.
"Que tipo de história?"
"De um homem que supostamente virava lobisomem."
Ele ergueu os olhos.
"Você tá falando sério?"
"Estou falando de uma lenda bastante conhecida. Não de uma transformação comprovada."
Ela mostrou as anotações que havia reunido.
Os relatos não concordavam entre si.
Em alguns, João Valentim virava um cachorro grande que percorria caminhos e povoados durante a noite. Em outros, assumia a forma de lobisomem. Havia ainda histórias em que aparecia como gato.
Uma das versões atribuía sua condição ao fato de ser o sétimo filho homem de uma família e de não ter recebido determinado batismo do irmão mais velho.
Dant ouviu tudo com atenção.
"Mas o que ele fazia quando se transformava?"
"Aí é que a história fica interessante."
Babizinha virou a folha.
"Algumas pessoas tinham muito medo dele. Outras contavam que não fazia mal a ninguém. Há relatos em que ele aparece quase como um justiceiro, assustando quem fazia alguma coisa errada."
"Um lobisomem que não atacava pessoas?"
"Um homem sobre quem contavam isso. A diferença importa."
Dant assentiu.
"Importa."
Ela continuou.
"Também há relatos de que ele desapareceu da região por volta dos anos noventa. Algumas pessoas diziam que tinha ido para Aracaju. Outras simplesmente continuaram contando histórias."
"Aracaju..."
Dant repetiu o nome da cidade quase sem perceber.
Babizinha compreendeu a direção de seu pensamento.
"Não começa."
"Eu não falei nada."
"Você está pensando que ele pode ser o lobisomem que te mordeu."
Dant ficou calado.
"Não temos uma única prova disso", ela continuou.
"Mas temos um homem conhecido no sertão por se transformar. E a criatura que me atacou apareceu aqui, em Sergipe."
"Isso não basta. Monte Alegre e Simão Dias não são a mesma cidade. E os relatos sobre Valentim descrevem muitas vezes um cachorro, não aquela criatura enorme que vimos naquela noite."
Dant se levantou e caminhou até a janela.
Lá fora, uma motocicleta passou devagar.
"Eu lembro dos olhos dele."
Babizinha aguardou.
"Não eram só olhos de bicho. Tinha alguma coisa de gente ali."
"Eu lembro."
"Às vezes fico pensando se ele sabia exatamente o que estava fazendo."
"Também não sabemos isso."
"E se ele conseguia se controlar?"
Babizinha não respondeu imediatamente.
Dant se virou.
"E se ele podia ter ido embora antes de me atacar, mas resolveu ficar?"
O silêncio pesou entre eles.
"Isso é o que mais te assusta?", ela perguntou.
Dant demorou a responder.
"Não."
Olhou para Aurora, adormecida perto da porta.
"O que mais me assusta é descobrir que um dia eu também posso fazer uma escolha dessas."
Babizinha fechou o caderno.
"Então não vamos começar essa investigação tentando adivinhar as escolhas de um homem que nem sabemos se era a criatura."
"Por onde começamos?"
"Pelo que realmente aconteceu."
Ela se levantou.
"Você lembra onde foi mordido?"
Dant soltou uma risada sem humor.
"Eu lembro até de olhos fechados."
"Então vamos voltar lá."
∗ ∗ ∗
O antigo depósito ficava numa rua lateral que parecia ainda mais estreita do que Dant recordava.
As construções próximas continuavam de pé, mas o terreno murado havia mudado. Parte do reboco caíra, o portão estava preso por um cadeado novo e o mato avançava sobre o trecho junto à calçada.
Babizinha estacionou e apagou o motor.
Aurora, no banco de trás, levantou a cabeça.
Dant ficou observando o portão.
Na memória, ele estava entreaberto.
Havia marcas de arrasto no chão, um gemido vindo do interior e depois aqueles olhos.
A primeira pancada o derrubara.
A segunda abrira o ombro.
Ele ainda conseguia lembrar o peso da criatura sobre o próprio corpo.
"Você não precisa entrar", Babizinha disse.
Dant abriu a porta.
"Se eu não conseguir voltar aqui, nunca vou conseguir procurar esse bicho."
Aurora saiu com ele e começou a farejar o chão.
Dant manteve a guia curta.
Babizinha procurou um ponto de observação seguro junto ao muro, sem tentar forçar o portão.
"Você disse que ouviu um gemido antes do ataque, não foi?"
"Foi."
"Parecia humano?"
"Na hora, achei que fosse."
"Mas depois?"
Dant observou o terreno.
"Depois eu já não tinha muita condição de comparar."
Ela apontou para um trecho da parede.
"Olha ali."
Havia três riscos antigos no reboco, quase apagados.
Dant se aproximou.
"Eu lembrava deles mais fundos."
"Podem nem ser do mesmo dia. Esse muro tem marcas de tudo quanto é tipo."
"Eu sei."
Aurora parou de farejar.
As orelhas caídas se ergueram ligeiramente. Ela encarou uma passagem estreita entre o depósito e uma construção vizinha.
Dant ouviu o ruído um instante depois.
Um gemido.
Baixo, arrastado.
Seu corpo reagiu antes do pensamento.
O coração disparou. Os ombros ficaram rígidos. Por um segundo, a rua desapareceu.
Ele estava novamente no chão, sentindo as garras, tentando alcançar um celular que caíra longe demais.
"Dant."
A voz de Babizinha pareceu atravessar uma distância enorme.
"Olha pra mim."
Ele respirou pela boca.
Outro gemido veio da passagem.
Aurora soltou um latido curto e recuou até sua perna.
"Tem alguma coisa ali", Dant disse.
"Tem. Mas a gente ainda não sabe o que é."
"Eu conheço esse som."
"Você conheceu um som parecido numa noite em que quase morreu."
A frase o atingiu com mais força do que esperava.
Babizinha apontou para o chão.
"Olha as marcas."
Havia terra remexida perto da passagem e pequenos riscos que seguiam na direção de uma antiga abertura de drenagem.
Os dois contornaram a construção pelo acesso público da rua seguinte, mantendo Aurora com eles.
Uma grade de proteção parcialmente solta deixava à vista um vão estreito, onde se acumulavam folhas e pedaços de madeira.
O ruído veio novamente.
Dant acendeu a lanterna.
Dois olhos brilharam na escuridão.
Ele recuou instintivamente.
Então ouviu um choro fino.
Não era um rosnado.
Era um cachorro.

O animal estava preso entre a lateral da abertura e um pedaço de tela metálica. Tinha porte médio, pelagem escura coberta de poeira e uma tira de material plástico enroscada numa das patas traseiras.
Tentara se libertar repetidas vezes.
Cada movimento fazia a tela ranger e projetava uma sombra enorme na parede do depósito.
Dant observou o animal.
"Era isso que estava fazendo o barulho."
"Provavelmente há algum tempo", Babizinha respondeu.
O cachorro mostrou os dentes quando ele se aproximou.
"Calma, rapaz."
Babizinha segurou seu braço.
"Não coloca a mão. Ele está assustado e com dor."
Dant recuou.
Ela avaliou a abertura sem se aproximar demais do animal e pegou o celular.
"Vou pedir ajuda para retirar essa grade com segurança. Se puxarmos de qualquer jeito, podemos machucar a pata dele."
Aurora permaneceu ao lado de Dant, inquieta.
O cachorro choramingou outra vez.
Na cabeça de Dant, o som se misturou ao gemido daquela noite antiga.
Ele se agachou a uma distância segura.
"Engraçado..."
"O quê?"
"Na noite em que fui atacado, eu entrei porque achei que tinha alguém precisando de ajuda."
Babizinha olhou para o animal preso.
"E agora tem."
Dant permaneceu ao lado dela enquanto explicava a localização pelo telefone. Pouco depois, um morador da rua se aproximou, atraído pela movimentação, e confirmou que vinha ouvindo ruídos havia dois dias.
Com auxílio de pessoas do local e de um resgate solicitado para o animal, conseguiram liberar o acesso sem derrubar a grade sobre ele.
Dant ajudou a segurar uma parte da estrutura, seguindo as orientações de quem fazia a retirada.
Quando a pata ficou livre, o cachorro tentou se erguer, mas não conseguiu apoiar completamente o peso.
Babizinha o observou com preocupação.
"Vai precisar de atendimento veterinário."
O homem que acompanhara a retirada se ofereceu para ajudar no transporte até um serviço adequado.
Antes de levarem o animal, Dant se aproximou apenas o suficiente para observá-lo.
O cachorro estava exausto.
Não havia nada de monstruoso naqueles olhos.
Só medo.
E dor.
Dant pensou em quantas histórias de lobisomens começavam com alguém vendo um animal onde não deveria existir um.
Olhou para as sombras distorcidas na parede e depois para o muro do antigo depósito.
O gemido daquela tarde estava explicado.
Mas o gemido da noite em que fora mordido continuava sem resposta.
∗ ∗ ∗
O sol já começava a baixar quando Babizinha terminou de conversar com o morador.
Dant estava examinando, do lado de fora do terreno, uma parte mais antiga do muro.
Na base havia terra acumulada, pequenos restos de tijolo e fragmentos de concreto.
Ele encontrou uma depressão parcialmente protegida pela saliência de uma pedra.
Parecia uma marca antiga de pegada.
Larga demais para um cachorro comum.
Mas tão desgastada que ele não conseguiu distinguir com segurança sua origem.
Babizinha se aproximou.
"Encontrou alguma coisa?"
"Talvez."
Ele iluminou o chão.
"Na noite do ataque, eu vi uma coisa parecida perto do portão."
Ela se agachou para observar.
"Pode ser muita coisa."
"Eu sei. O que você acha?"
"Que vale fotografar, medir e comparar. Não vale decidir o que é antes disso."
Dant pegou o celular.
Fotografou a marca com um objeto comum ao lado para registrar a escala e fez uma segunda imagem do muro.
Quando se levantou, ouviu o som de passos do outro lado da rua.
Um senhor parara perto de uma pequena venda e observava a movimentação.
"Vocês estavam procurando o cachorro?"
Babizinha respondeu.
"Estávamos. Já conseguiram tirar ele dali."
O homem assentiu.
"Ainda bem. Fazia um barulho danado."
Dant aproveitou a conversa.
"O senhor mora aqui há muito tempo?"
"Tempo suficiente."
"Lembra de alguma coisa estranha acontecendo nesse depósito, alguns anos atrás?"
O homem estudou seu rosto.
"Você é o rapaz que aquele bicho pegou na festa?"
Dant sentiu um frio no estômago.
"Sou."
O senhor ficou sério.
"Lembro dessa história."
"Chegou a ver o animal?"
"Não. Vi gente correndo e ouvi gritaria. Depois fiquei sabendo do rapaz que foi levado pro hospital."
Dant hesitou antes de fazer a pergunta seguinte.
"O senhor já ouviu falar em João Valentim?"
O homem pareceu surpreso.
"Valentim? O do sertão?"
"Esse mesmo."
"Meu pai falava dele. Dizia que era um homem que aparecia como cachorro. Mas isso era história lá pras bandas de Monte Alegre, Nossa Senhora da Glória..."
"Alguma vez ouviu falar dele aqui em Simão Dias?"
"História corre mais que gente, meu filho."
Dant não respondeu.
O senhor apoiou a mão no balcão.
"Eu não sei o que te atacou. Só não acho certo botar nome de gente numa coisa dessas sem saber."
Dant olhou para Babizinha.
Ela permaneceu em silêncio, deixando que ele respondesse.
"O senhor tem razão."
O homem desejou boa tarde e voltou para dentro da venda.
Dant guardou o celular.
"Não foi exatamente a resposta que eu queria."
"Mas pode ter sido a que você precisava."
Ele encarou o portão do depósito mais uma vez.
"Se não foi João Valentim, continuamos sem saber quem era."
"E se foi alguém com uma história parecida, ainda precisamos descobrir quem."
Dant começou a caminhar em direção ao carro.
Aurora o acompanhou.
Antes de entrar, ele parou.
"Babizinha."
"Oi?"
"Você lembra se, naquela noite, o bicho tentou atacar alguém depois que as pessoas chegaram?"
"Não. Ele fugiu."
"Mesmo estando por cima de mim."
"Sim."
Dant refletiu.
"Ele podia ter continuado."
"Talvez."
"Então por que não continuou?"
Babizinha apertou a chave do carro, mas não abriu a porta.
"Pode ter ficado com medo das pessoas. Pode ter se assustado com a luz. Pode ter reconhecido alguma coisa."
"Pode ter escolhido ir embora."
Ela assentiu.
"Pode."
Dant sentiu um desconforto familiar.
Todas as possibilidades terminavam no mesmo lugar.
Aquela criatura talvez fosse capaz de pensar.
E isso podia significar algo terrível.
Ou algo que ele próprio precisava desesperadamente descobrir.
∗ ∗ ∗
Naquela noite, já de volta à casa, Dant encontrou Babizinha organizando as anotações do avô.
Aurora dormia perto do sofá depois do jantar.
A janela estava aberta e a cidade chegava até eles em sons dispersos: televisão de uma casa vizinha, passos na calçada e um carro que passou devagar.
Babizinha colocou uma folha limpa sobre a mesa.
"Eu estava pensando numa coisa."
Dant puxou uma cadeira.
"Quando você fala isso, normalmente acaba sobrando trabalho pra mim."
"Você veio pedir ajuda ou reclamar?"
"As duas coisas."
Ela sorriu, mas logo voltou ao assunto.
"Todas essas histórias antigas têm um problema. Elas falam do resultado da transformação, mas quase nunca explicam o que acontece na cabeça de quem se transforma."
"Falam mais do monstro do que da pessoa."
"Isso."
Ela pegou uma caneta.
"Então, se quisermos entender o seu caso, precisamos começar pelo que você consegue lembrar."
Dant observou a folha.
"Você quer que eu escreva tudo?"
"Tudo que souber. O que sentiu antes da transformação, durante os momentos de que consegue lembrar e depois."
"E se acontecer de novo?"
"Não vamos provocar uma transformação hoje. Primeiro vamos preparar uma forma segura de observar, se algum dia decidirmos fazer isso."
Dant assentiu.
Ela escreveu algumas perguntas, deixando espaço para respostas.
Em uma delas, Dant reconheceu algo que vinha evitando desde a primeira noite.
O que você mais teme fazer quando não estiver no controle?
Ele pegou a caneta.
Ficou olhando para a folha.
Babizinha não o pressionou.
Por fim, Dant escreveu:
Machucar alguém que eu quero proteger.
Ela leu a frase quando ele deslizou o papel em sua direção.
"Tem mais alguma coisa?", perguntou.
Dant pensou no homem que afirmava lutar pelas colheitas, no nobre francês que conservava a inteligência e no lobo irlandês que procurava ajuda para sua companheira.
Pensou também no cachorro preso, que mostrara os dentes simplesmente porque estava com medo.
Pegou a caneta novamente.
Abaixo da primeira resposta, acrescentou:
Não reconhecer alguém que tente me ajudar.
Babizinha permaneceu olhando para as duas frases.
"Então já sabemos por onde começar."
"Por onde?"
"Reconhecimento. Memória. Segurança. Uma coisa de cada vez."
Dant respirou fundo.
"Você realmente acha que eu tenho chance?"
Ela se aproximou da mesa.
"Eu não sei se você vai conseguir controlar uma transformação inteira. Não sei se poderá escolher quando ela começa. E não vou mentir sobre isso."
Dant aguardou.
"Mas aquelas histórias mostram que a ideia de um lobisomem consciente não começou com a gente. E você já deu sinais de que talvez alguma coisa da sua consciência continue lá."
Ele olhou para ela.
"Isso não é uma cura."
"Não."
"Mas é um começo."
Babizinha concordou.
"É."
Dant baixou os olhos para suas mãos.
Durante muito tempo, imaginara a maldição como uma estrada sem retorno. A única pergunta era quanto demoraria até perder o controle e se tornar tão perigoso quanto a criatura que o mordera.
Agora havia outra possibilidade.
Talvez o problema não fosse simplesmente evitar o lobo.
Talvez fosse descobrir como continuar sendo Dant quando o lobo aparecesse.
Um pequeno movimento fez os dois olharem para o sofá.
Aurora acordara.
A cachorrinha desceu, caminhou até Dant e apoiou o focinho em sua perna.
Ele acariciou as orelhas caramelo.
"Você também vai ter que me ajudar, viu?"
Aurora abanou a cauda.
"Mas sem heroísmo dessa vez. Já deu de quase cair em canal."
Babizinha riu.
"Finalmente uma regra sensata."
Dant ficou olhando para a cachorrinha por mais alguns instantes.
Depois fechou o caderno.
"Tem outra coisa que quero investigar."
Babizinha já parecia esperar.
"João Valentim?"
"Não quero sair dizendo que foi ele. Mas quero entender melhor por que tantas pessoas contavam histórias sobre aquele homem."
"Podemos começar pelos relatos de Monte Alegre. Comparar o que as pessoas efetivamente disseram, não apenas o que foi repetido depois."
"E descobrir se alguém mais na região teve uma história parecida."
"Isso."
Dant olhou para a janela.
"Se o lobisomem que me mordeu estava consciente, quero saber por que fez aquilo."
"E se não estava?"
"Quero descobrir se existe uma maneira de impedir que aconteça de novo."
Babizinha recolheu as folhas.
"Agora você está fazendo as perguntas certas."
∗ ∗ ∗
Já passava das onze quando Dant se preparou para dormir no quarto onde ficaria hospedado.
Aurora circulou duas vezes sobre a manta antes de se deitar.
Ele apagou a luz.
A cidade estava tranquila.
Dant fechou os olhos, mas voltou a pensar no instante em que o lobisomem fugira do terreno.
A criatura levantara a cabeça quando ouviu as pessoas se aproximando.
Não avançou contra elas.
Não terminou o ataque.
Apenas recuou e desapareceu.
Naquela época, Dant interpretara aquilo como medo.
Agora, depois de ouvir todas aquelas histórias, já não tinha tanta certeza.
Virou de lado e tentou dormir.
Então se lembrou de um detalhe.
Não das garras.
Nem da mordida.
De uma fração de segundo anterior à fuga.
Babizinha havia gritado para que as pessoas se afastassem.
E, antes de correr, a criatura parecera olhar diretamente para ela.
Dant abriu os olhos.
Havia uma diferença entre fugir de uma multidão e reconhecer uma voz.
Ele ainda não sabia qual das duas coisas acontecera.
Mas precisava fazer uma pergunta a Babizinha na manhã seguinte.
Será que o lobisomem que o mordeu já conhecia a mulher que salvou sua vida?





