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A Última Carona

Após duas mortes estranhas no Conjunto Augusto Franco, Dant e Aurora investigam a lenda da mulher de branco em sua primeira caçada independente.

Dant ao volante de um carro parado à noite, com Aurora no banco traseiro e uma rua junto a um canal de Aracaju iluminada por postes.
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O segundo motorista morreu nove dias depois do primeiro.

Os dois acidentes aconteceram à noite, em pontos próximos do Conjunto Augusto Franco, na zona sul de Aracaju. Nenhum dos veículos apresentava defeito mecânico evidente. Não havia indícios de colisão com outro carro e, segundo as primeiras informações, os motoristas estavam sozinhos.

Mas uma coisa chamava a atenção de quem acompanhava os casos: pouco antes de morrerem, ambos tinham contado a conhecidos que estavam vendo uma mulher de branco pelas ruas do conjunto.

Dant leu a notícia duas vezes.

Estava sentado à mesa da cozinha, com uma xícara de café esquecida ao lado do celular. Aurora descansava debaixo da cadeira. Desde que Babizinha lhe entregara a cachorrinha, a rotina dele havia mudado bastante. Agora havia passeios, horários de alimentação, brinquedos espalhados pela casa e alguém que o observava atentamente sempre que abria a geladeira.

Também havia outra mudança.

Depois daquela quarta noite em Simão Dias, Dant nunca mais conseguira olhar para uma notícia estranha da mesma maneira.

A mordida, os dias de recuperação, as transformações e tudo o que Babizinha lhe ensinara haviam destruído a tranquilidade de acreditar que o mundo funcionava exatamente como parecia.

Ele já sabia que criaturas sobrenaturais existiam. Sabia também que o conhecimento adquirido nos treinamentos estava longe de prepará-lo para todas elas.

Até então, aprendera a investigar principalmente sob a orientação de Babizinha. Desta vez, porém, encontrara o caso sozinho.

Abriu outra reportagem.

O primeiro homem, Gilson, dirigia um carro de aplicativo. Perdera o controle do veículo e batera contra um muro próximo a uma via do conjunto. O segundo, um motociclista chamado Márcio, havia sido encontrado sem vida depois de uma queda em outro trecho da região.

Os nomes e as circunstâncias eram diferentes. A mulher de branco era o único elemento em comum, e a polícia ainda não havia estabelecido qualquer relação entre os acidentes.

Nos comentários da reportagem, alguém escreveu:

"A Loira do Augusto Franco voltou."

Dant franziu a testa.

"Loira do Augusto Franco?"

Aurora ergueu a cabeça ao ouvir a voz dele.

"Você já ouviu falar dessa?"

A cachorrinha bateu a cauda no chão.

"Imaginei."

Dant abriu uma nova pesquisa.

As primeiras páginas traziam histórias antigas, algumas bastante semelhantes. Uma mulher loira, vestida de branco, surgia à noite nas estradas do Conjunto Augusto Franco. Pedia carona aos motoristas, especialmente taxistas, e desaparecia durante o percurso.

Outros relatos descreviam um perfume intenso de flores de cemitério. Alguns afirmavam que ela surgia no banco traseiro sem que ninguém tivesse aberto a porta. Havia até versões nas quais a mulher aparecia com algodão nas narinas, como um cadáver preparado para o velório.

Dant passou a mão pelo rosto.

"Tá. Isso definitivamente não parece normal."

Durante alguns minutos, considerou telefonar para Babizinha.

Ela provavelmente já tinha ouvido falar da lenda. Talvez soubesse identificar o tipo de manifestação e como enfrentá-la.

Mas ficou olhando para o número dela sem iniciar a ligação.

Não porque quisesse provar alguma coisa. Era justamente o contrário.

Se havia decidido ajudar pessoas ameaçadas pelo sobrenatural, precisava aprender a investigar sem depender de alguém para interpretar cada pista.

Guardou o celular, levantou e pegou o peitoral de Aurora.

"Que tal um passeio diferente?"

Ela se levantou imediatamente.

"Eu sabia que essa parte você ia gostar."

Naquela manhã, Dant começou sua primeira caçada por conta própria.

E ainda não fazia ideia de como se enfrentava um fantasma.

As ruas onde a Loira aparece

O Conjunto Augusto Franco não parecia um lugar assombrado.

O movimento era intenso nas ruas principais. Havia motocicletas passando entre os carros, pequenos estabelecimentos comerciais, moradores conversando nas calçadas e pessoas voltando das compras no Mercado Milton Santos.

Mais adiante, as avenidas dos canais atravessavam a paisagem urbana, cercadas por casas, prédios e espaços comerciais que haviam surgido ao longo de décadas.

Dant conhecia aquela parte de Aracaju, mas nunca tivera motivo para observar os detalhes com tanta atenção.

Começou pelo lugar onde Gilson havia morrido.

O muro atingido pelo veículo já tinha passado por reparos provisórios. Ainda era possível perceber uma diferença na pintura e algumas marcas antigas no concreto.

Aurora aproximou o focinho do chão, interessada em um tufo de mato que crescia junto à calçada. Dant a deixou farejar, mantendo a guia curta para não permitir que se aproximasse da pista.

Uma senhora que varria a frente de casa percebeu o interesse dele.

"Tá procurando alguma coisa, meu filho?"

Dant se virou.

"Queria saber do acidente que aconteceu aqui. A senhora viu alguma coisa?"

A mulher apoiou a vassoura no chão.

"Vi foi depois. Acordei com o barulho. Quando cheguei no portão, já tinha gente correndo."

"O carro estava muito destruído?"

"Na frente, sim. Mas o estranho foi outra coisa."

Dant se aproximou um pouco.

"O quê?"

"Uma moça que mora ali na esquina disse que viu o carro parar antes. Ficou um tempinho parado, como se o motorista estivesse esperando alguém entrar."

"Ela viu alguém?"

"Disse que não. Mas depois o carro arrancou de uma vez."

A senhora olhou para a rua.

"Tem gente dizendo que foi aquela loira."

"A senhora acredita?"

"Meu filho, eu acredito que um homem morreu aqui. O resto eu não sei."

Dant agradeceu.

A resposta permaneceu na cabeça dele enquanto caminhava.

Era fácil procurar uma criatura quando se conhecia sua existência. Muito mais difícil era não transformar cada informação duvidosa numa prova.

Antes de seguir para o segundo local, entrou numa pequena lanchonete.

Ali conseguiu conversar com Rogério, um motorista que havia tido uma experiência semelhante poucas semanas antes dos acidentes. Um comerciante da região lhe indicara o homem depois de ouvir as perguntas de Dant.

Rogério estava sentado perto da entrada, com um copo de suco à sua frente.

"Você é jornalista?"

"Não. Estou tentando entender o que aconteceu com aqueles motoristas."

"Da polícia?"

"Também não."

Rogério o observou por um instante.

"Então por que tá se metendo nisso?"

Dant hesitou.

Porque tinha sido mordido por um lobisomem? Porque conhecia uma caçadora que enfrentava criaturas à noite? Porque talvez outra pessoa morresse se ninguém descobrisse o que estava acontecendo?

Optou pela resposta mais simples.

"Porque acho que tem alguma coisa errada."

Rogério afastou o copo.

"Tem mesmo."

Ele contou que voltava de uma corrida perto da meia-noite quando viu uma mulher parada na calçada. Era jovem, loira e usava um vestido branco comprido.

"Ela fez sinal pra eu parar."

"E você parou?"

"Não de primeira. Tinha ouvido umas conversas. Só que, quando olhei pelo retrovisor, ela tava sentada atrás de mim."

Dant permaneceu imóvel.

"Você viu ela entrar?"

"Não. Só apareceu."

"E o que aconteceu?"

Rogério apertou as mãos.

"Veio um cheiro forte de flor. Aquelas flores de enterro. Aí ela começou a falar."

"O que ela disse?"

"Eu não entendi tudo. Parecia desesperada. Repetia uma coisa sobre um menino."

Dant inclinou o corpo para a frente.

"Um menino?"

"Foi o que ouvi. Depois ela apontou pra fora do carro. Eu olhei, e tinha água escorrendo pelo vidro. Só que não tava chovendo."

Rogério respirou fundo.

"Quando olhei de novo pro banco, não tinha ninguém. Eu saí dali sem nem esperar o sinal abrir."

"Você viu o rosto dela?"

"Vi pelo espelho. E era a pior parte."

"Por quê?"

"Não parecia que ela queria me assustar."

Rogério fez uma pausa.

"Parecia que ela tava com mais medo do que eu."

Dant não respondeu imediatamente.

Até aquele momento, a ideia de encontrar uma aparição hostil lhe parecia a explicação mais provável para as mortes.

Agora havia outra possibilidade.

Talvez aquela mulher não estivesse perseguindo os motoristas.

Talvez estivesse tentando dizer alguma coisa.

Histórias que os mortos deixam para trás

Naquela noite, Dant espalhou sobre a mesa um caderno, o celular e algumas anotações.

Aurora dormia perto de seus pés depois de um passeio cansativo.

Ele começou pelas versões mais antigas da Loira do Augusto Franco.

A história circulava desde os primeiros anos do conjunto, construído na década de 1980. Os relatos variavam, mas quase sempre envolviam motoristas surpreendidos por uma passageira que desaparecia.

Algumas narrativas diziam que a mulher era uma noiva à procura de um aviador. Outras afirmavam que ela tinha morrido num acidente. Havia quem jurasse que aparecia perto dos cemitérios e quem tratasse tudo como uma brincadeira antiga alimentada por programas de rádio e jornais.

Um relato, escrito décadas antes, mencionava o cheiro de cravos.

Dant anotou:

Mulher de branco. Carona. Banco traseiro. Flores. Desaparecimento.

Depois acrescentou:

Menino. Água. Medo.

Os três últimos detalhes não apareciam nas versões populares que ele havia encontrado.

Continuou pesquisando.

Descobriu histórias parecidas em outros lugares do Brasil. Em Belo Horizonte, havia relatos sobre a Loira do Bonfim, associada a motoristas e a um cemitério. Em outros países, narrativas sobre passageiras fantasmas descreviam mulheres que desapareciam antes de chegar ao endereço solicitado.

Os nomes e cenários mudavam. A estrutura era quase sempre a mesma.

Uma pessoa aceitava dar carona a um desconhecido.

O desconhecido desaparecia.

Só depois vinha a descoberta de que aquela pessoa já estava morta.

Dant pesquisou também relatos sobre almas penadas, aparições e fantasmas que retornavam para avisar os vivos ou revelar alguma coisa deixada para trás.

Encontrou recomendações de todo tipo. Sal nas portas. Objetos de ferro. Orações. Velas. Ritos religiosos. Histórias de espíritos ligados a lugares, objetos, promessas e acontecimentos interrompidos.

Nada daquilo parecia formar um conjunto confiável de regras.

Uma tradição atribuía poder de proteção a determinado objeto. Outra contava uma história completamente diferente. E quase nenhuma explicava como alguém poderia descobrir se um espírito realmente desejava machucar pessoas.

Dant olhou para o caderno.

Ele sabia enfrentar uma ameaça física. Ainda tinha muito a aprender sobre criaturas que podiam desaparecer diante dos seus olhos.

Pensou em Babizinha.

Imaginou a expressão dela ao encontrá-lo pesquisando na internet como se estivesse procurando instruções para consertar um aparelho.

Você tá procurando um jeito de vencer antes de descobrir contra quem está lutando.

Era exatamente o tipo de coisa que conseguia imaginá-la dizendo.

Ele fechou uma das páginas.

Talvez a primeira pergunta não fosse como expulsar um fantasma.

Talvez fosse por que ele continuava ali.

Na manhã seguinte, decidiu procurar alguém que conhecesse a história antes de ela se tornar apenas uma lenda.

Encontrou seu Nivaldo por indicação de um morador antigo.

O homem, aposentado havia anos, tinha trabalhado como taxista durante boa parte da vida. Morava numa casa térrea do conjunto, com plantas distribuídas pela frente e uma cadeira de plástico ao lado da porta.

Quando ouviu o assunto, soltou uma risada.

"Rapaz, essa mulher já assustava motorista quando você nem tinha nascido."

Dant puxou uma cadeira.

"O senhor chegou a vê-la?"

"Ver, ver mesmo? Não. Vi foi muito homem jurando que tinha visto."

"E o senhor acredita?"

"Depois de certa idade, a gente aprende que tem gente que inventa mentira e tem gente que acredita na própria mentira."

Ele tomou um gole de água.

"Mas teve um caso antigo que nunca saiu da minha cabeça."

Dant abriu o caderno.

"Pode contar?"

"Foi pouco tempo depois que o conjunto começou a crescer. Uma chuva daquelas deixou um bocado de lugar alagado. Uma moça morreu perto de uma passagem de água. Diziam que ela tinha entrado no canal atrás de um menino."

"Que moça?"

"Não lembro o nome. Só sei que era nova. O menino, pelo que falavam, tinha sobrevivido."

Dant sentiu o coração acelerar.

"Ela era loira?"

Nivaldo pensou por alguns segundos.

"Era, sim. Pelo menos na fotografia que mostraram."

"Ela usava roupa branca?"

"Isso já não sei. Mas lembro de outra coisa."

"O quê?"

"Na época, alguém falou que ela tentou parar os carros antes de entrar na água. Pedia ajuda, gritava, fazia sinal. Um motorista disse que não entendeu o que ela queria."

O aposentado ficou olhando para a rua.

"Depois começaram as histórias da carona. E pronto. A mulher deixou de ter nome. Virou assombração."

Dant guardou aquela frase.

A mulher deixou de ter nome.

Talvez fosse por ali que sua investigação realmente começasse.

O cheiro dos cravos

Dant passou boa parte do dia seguinte procurando registros antigos.

Nos acervos digitalizados de jornais sergipanos, encontrou uma pequena notícia sobre um acidente ocorrido em 1987.

Não era uma reportagem sobre fantasmas.

Tratava-se da morte de uma jovem chamada Marta Almeida, de vinte e quatro anos, durante uma forte chuva na região que começava a se urbanizar.

Segundo a nota, ela teria entrado numa passagem alagada para tentar socorrer o irmão mais novo.

O corpo fora localizado posteriormente.

O menino sobrevivera.

A reportagem era curta, mas havia uma fotografia.

Uma jovem de cabelos claros, sorriso discreto e olhos atentos.

Dant aproximou a imagem na tela.

Não tinha como afirmar que era a mesma mulher descrita por Rogério. Ainda assim, os detalhes se encaixavam melhor do que a história do aviador.

Anotou o nome e continuou a pesquisa.

Descobriu que a família havia vivido numa área próxima a um dos canais, mas a antiga residência já não existia. Transformações urbanas tinham mudado boa parte dos acessos e construções.

À tarde, voltou ao Augusto Franco.

Queria observar a região do antigo acidente antes de escurecer.

Aurora caminhava ao lado dele, parando ocasionalmente para farejar a vegetação. O calor permanecia forte, embora nuvens escuras começassem a se acumular sobre Aracaju.

Ao se aproximarem de uma passagem lateral próxima ao Canal 4, Aurora puxou a guia.

"Calma, menina."

Ela insistiu, com o focinho rente ao chão.

Dant acompanhou o movimento e percebeu algumas pétalas espalhadas perto de um canteiro.

Cravos.

Flores frescas.

A cachorrinha farejou um pedaço de fita azul preso à vegetação e seguiu alguns metros pela calçada. Mais adiante, um homem de cabelos grisalhos caminhava lentamente, carregando uma sacola e outro pequeno buquê amarrado com fita semelhante.

Dant não tinha certeza de que era a mesma pessoa que deixara aquelas flores. Mas resolveu perguntar.

"Com licença!"

O homem parou.

"Pois não?"

"O senhor costuma deixar flores aqui perto?"

O desconhecido olhou para a sacola.

"Às vezes."

"Posso perguntar pra quem?"

A expressão do homem mudou.

"Pra minha irmã."

Dant sentiu um arrepio.

"Ela se chamava Marta?"

O silêncio que se seguiu pareceu mais longo do que realmente foi.

"Quem é você?"

"Meu nome é Dant. Eu estou investigando uns acidentes que aconteceram aqui."

"Você é da imprensa?"

"Não."

"Então deixa minha família em paz."

O homem começou a se afastar.

Dant não tentou impedi-lo. Apenas falou:

"Acho que sua irmã está tentando avisar alguma coisa."

O homem parou novamente.

Virou-se devagar.

"Não brinca com isso, rapaz."

"Eu não tô brincando."

Dant mostrou a fotografia antiga no celular.

"Essa era ela?"

O desconhecido olhou a imagem.

Demorou alguns segundos para responder.

"Era."

A voz saiu baixa.

"Eu sou Davi."

Dant percebeu que finalmente encontrara a pessoa que procurava.

Davi aceitou conversar num pequeno banco afastado da rua. Aurora se acomodou perto dos pés de Dant, ainda interessada no cheiro das flores.

O homem tinha quarenta e tantos anos e lembrava pouco da noite em que a irmã morreu.

Lembrava da chuva. Da água subindo. Da mão de Marta segurando seu braço.

E do momento em que os dois foram separados pela correnteza.

"Eu fiquei preso num pedaço de concreto. Um homem me puxou mais adiante. Minha irmã não conseguiu sair."

Davi apertou os dedos ao redor da sacola.

"Passei anos tentando lembrar se ela me viu sendo resgatado."

"Você contou isso a alguém?"

"À minha mãe, enquanto ela era viva. Depois, quase não falava mais."

"Por que traz flores?"

"Porque foi a última coisa que ela comprou naquele dia."

Davi olhou para o buquê.

"Tinha ido buscar umas flores pra uma festa de família. Voltou pra casa antes de começar a chuva."

Dant recordou as descrições antigas de vestidos brancos e buquês.

Um detalhe verdadeiro podia ter atravessado décadas, misturado a tantos outros que ninguém mais sabia de onde viera.

"E por que justamente aqui?"

"Era perto de onde ela morreu. Minha mãe sempre deixava flores. Depois que ela se foi, continuei."

"Os acidentes recentes aconteceram nessa região."

"Eu sei."

Davi olhou para o canal.

"Faz umas semanas que mexeram naquela passagem. Tiraram parte de uma mureta antiga. Desde então, tenho sonhado com Marta."

Dant acompanhou a direção do olhar.

Havia um trecho isolado parcialmente por barreiras de obra. A vegetação escondia uma abertura de drenagem junto ao desnível da calçada. Uma sinalização provisória estava caída.

"Você viu sua irmã depois da morte?"

Davi demorou a responder.

"Uma vez, muitos anos atrás. Pelo menos achei que vi."

"O que aconteceu?"

"Ela estava do outro lado da rua. Parecia esperar alguém. Quando fui chamar, um carro passou. Depois, não tinha mais ninguém."

Uma rajada de vento movimentou as folhas próximas ao canal.

Davi apertou o buquê com força.

"Você acha que aquelas pessoas morreram por causa dela?"

Dant pensou nos dois motoristas.

Pensou em Rogério e no que ele contara sobre a mulher desesperada no banco traseiro.

"Eu ainda não sei."

Era a única resposta que podia oferecer.

A passageira do banco traseiro

Naquela noite, Dant voltou sozinho ao trecho da passagem.

Sozinho, pelo menos no que dizia respeito a outros humanos.

Aurora estava no banco traseiro de um carro pequeno que ele conseguira para a investigação, presa ao peitoral de segurança. A cachorrinha parecia pouco satisfeita com a interrupção de seu descanso, mas havia aceitado um petisco antes de entrar.

O automóvel permanecia estacionado num recuo seguro, afastado da abertura do canal.

Dant não pretendia dirigir até que soubesse o que poderia acontecer.

Havia levado uma lanterna, o celular carregado, uma pequena bolsa de primeiros socorros e alguns objetos que encontrara mencionados em relatos de proteção contra aparições.

Entre eles, um saquinho de sal e um pedaço de ferro.

Não sabia se teriam qualquer efeito.

Também não pretendia descobrir atacando uma presença que talvez estivesse pedindo ajuda.

Pouco depois das onze e meia, a rua ficou mais tranquila.

Dant observava pelo para-brisa a vegetação agitada pelo vento quando sentiu um perfume.

Flores.

Não era o cheiro suave dos cravos que Davi carregava.

Era intenso, quase enjoativo, como o ar parado de um salão cheio de coroas funerárias.

Aurora se levantou no banco.

As orelhas ficaram baixas.

Dant olhou pelo retrovisor.

Havia alguém sentado ao lado da cachorrinha.

Uma mulher jovem.

Cabelos loiros caíam sobre os ombros. O vestido branco parecia antigo e estava manchado de barro na parte inferior.

Ela olhava pela janela.

Dant sentiu o corpo inteiro se contrair.

Não ouvira a porta abrir.

Não vira ninguém se aproximar.

Ainda assim, a mulher estava ali.

Aurora começou a rosnar baixinho, pressionada contra o lado oposto do banco.

Dant tentou controlar a respiração.

"Boa noite."

A mulher não respondeu.

"Você precisa de ajuda?"

Ela virou a cabeça.

Seu rosto era pálido. Os olhos tinham uma expressão de urgência, e havia água escorrendo dos cabelos para o tecido do vestido.

"Pare."

A voz parecia vir de muito longe.

"O carro tá parado."

Ela olhou para a frente.

"Pare. Por favor."

Dant sentiu o banco esfriar debaixo de si.

No vidro do para-brisa surgiram pequenas gotas de água.

Depois outras.

Em segundos, a rua desapareceu atrás de uma cortina de chuva.

Mas Dant conseguia enxergar, pelo retrovisor lateral, a calçada seca.

Ele estava vendo duas coisas diferentes.

A rua como existia naquele momento.

E a rua como a mulher se lembrava dela.

Um som de água corrente começou a preencher o interior do carro.

Aurora latiu.

Dant olhou de novo para o espelho central.

A mulher agora estava mais próxima.

"Ele caiu."

Dant apertou o volante.

"Quem caiu?"

"Eu não consigo..."

Ela interrompeu a frase.

Seus olhos se arregalaram.

"Não deixa ele afundar!"

Por um instante, a mulher pareceu se desfazer em água.

A chuva desapareceu.

O perfume se tornou insuportável.

Aurora latiu outra vez, e Dant se virou.

O banco ao lado dela estava vazio.

Dant abriu a porta e saiu do veículo, respirando com dificuldade.

A rua continuava seca.

Nenhuma gota havia caído do céu.

Mas havia um fio de água escorrendo pela borracha da porta traseira.

Ele passou os dedos pelo líquido.

Estava gelado.

Pela primeira vez desde Simão Dias, Dant sentiu medo de algo que não poderia afastar com a própria força.

A mulher não possuía um corpo contra o qual lutar.

Não parecia reconhecer o presente.

E carregava consigo os últimos instantes de uma morte ocorrida décadas antes.

Dant se apoiou no carro.

Seu primeiro impulso foi telefonar para Babizinha.

Não seria vergonha pedir ajuda. Ela provavelmente saberia melhor do que ele como agir diante de uma manifestação tão intensa.

Mas antes precisava compreender uma coisa.

A mulher repetira as mesmas palavras de alguém tentando impedir uma tragédia.

Pare. Ele caiu. Não deixa ele afundar.

Ela não estava pedindo uma carona para ir embora.

Estava tentando conseguir ajuda.

Ainda.

Quase quarenta anos depois.

A última tentativa

Na manhã seguinte, Dant procurou Davi novamente.

Contou o que tinha visto.

Não tentou suavizar os detalhes, mas também não apresentou sua interpretação como certeza.

Davi ouviu tudo com os olhos fixos no chão.

"Ela ainda acha que eu tô lá?"

"É possível."

"E aqueles motoristas?"

"Talvez ela tenha aparecido tentando fazer a mesma coisa. Pedindo que parassem. Eles se assustaram."

Davi fechou os olhos.

"Minha irmã morreu tentando me salvar."

"Eu sei."

"E agora pode estar causando outras mortes?"

Dant não conseguiu responder imediatamente.

A situação era pior do que imaginara.

Se sua hipótese estivesse certa, Marta não compreendia que o irmão havia sobrevivido. Continuava tentando interromper carros e pedir ajuda num lugar que já não era o mesmo de sua morte.

As aparições provocavam pânico. O pânico, em certas circunstâncias, podia provocar acidentes fatais.

O fato de ela não desejar machucar ninguém não tornava a manifestação menos perigosa.

Dant precisava encontrar uma forma de fazê-la perceber que o acontecimento havia terminado.

Mostrou a Davi as anotações sobre outras histórias de assombrações.

"Em alguns relatos, o espírito fica ligado a uma pessoa ou a um acontecimento. Tem histórias em que ele desaparece quando alguma coisa é esclarecida, quando uma promessa é cumprida ou quando alguém finalmente consegue se despedir."

"Você acredita nisso?"

"Acredito que vale tentar."

"E se não funcionar?"

Dant olhou para os arranhões recentes no próprio braço, provocados quando se afastara rapidamente do carro na noite anterior.

"Então a gente recua. E procura outra solução."

Não queria colocar Davi no centro de uma manifestação sem antes discutir os riscos. Explicou o que havia acontecido dentro do automóvel, a confusão entre presente e passado, o medo de Aurora e a possibilidade de alguém se machucar.

Davi ouviu até o fim.

Depois perguntou:

"Se ela aparecer, você acha que consegue me ouvir?"

"Não sei."

"Então eu quero falar com ela."

Dant hesitou.

Pensou novamente em Babizinha.

Ela provavelmente o repreenderia por considerar um plano tão arriscado.

Mas também sabia que, diante de uma criatura desconhecida, proteger as pessoas não significava sempre impedir que tomassem decisões.

Conversaram longamente.

Dant não prometeu que daria certo. Combinou que Davi ficaria num ponto seguro da calçada, afastado da passagem de água, e que interromperiam a tentativa diante de qualquer sinal de perigo.

Durante a tarde, Dant comunicou a abertura mal sinalizada a um serviço municipal e informou o risco de novos acidentes. Fotografou as barreiras caídas e registrou a localização.

Não podia saber se o fantasma desapareceria.

O buraco no caminho, porém, continuaria existindo mesmo sem ele.

À noite, voltou ao local.

O céu estava coberto de nuvens. O vento trazia o cheiro da vegetação úmida e o ruído distante dos carros nas avenidas principais.

Davi esperava no ponto combinado, com o pequeno buquê de cravos nas mãos.

Aurora permanecia presa ao peitoral no carro estacionado, com uma janela parcialmente aberta. Dant havia deixado o veículo num lugar afastado da passagem e decidido realizar a tentativa do lado de fora, sem movimentá-lo.

Faltavam poucos minutos para a meia-noite.

"Você tem certeza?", Dant perguntou.

Davi assentiu.

"Passei a vida inteira querendo falar com ela."

"Se alguma coisa ficar estranha, você se afasta. Sem discutir."

"Tá bom."

Dant acendeu a lanterna.

O primeiro sinal foi o perfume.

Veio de repente, intenso e familiar.

Aurora se ergueu no banco traseiro.

Uma mulher surgiu no reflexo da janela do carro.

Mas não estava dentro dele.

Dant se virou.

Ela permanecia parada alguns metros adiante, perto da calçada.

O vestido branco se movia como se estivesse submerso. Os cabelos molhados grudavam em seu rosto.

Davi levou a mão à boca.

"Marta..."

A mulher não reagiu.

Continuava olhando para a rua.

Então ergueu um braço e apontou para a passagem.

"Ele caiu."

Dant deu um passo à frente.

"Marta, escuta. O menino saiu da água."

A mulher não pareceu ouvi-lo.

O cheiro das flores se tornou mais forte.

"O menino saiu", Dant repetiu.

A figura começou a caminhar.

Não em direção a Davi.

Em direção ao canal.

Dant percebeu o perigo tarde demais.

O chão sob seus pés pareceu mudar.

A calçada desapareceu.

Por um instante, ele se viu numa estrada de barro, sob chuva forte. A água subia pelas pernas, e uma correnteza escura avançava por uma passagem estreita.

Havia um menino gritando em algum lugar.

Dant tentou recuar.

Seu pé encontrou o desnível verdadeiro da calçada.

A visão da chuva o impedia de distinguir a abertura de drenagem que estava logo adiante.

Um latido agudo atravessou o barulho da água.

Aurora.

Dant parou.

Outro latido.

Ele se agarrou à estrutura firme de uma barreira lateral, sentindo a palma da mão raspar no metal.

Quando piscou, a rua voltou.

Estava a menos de um passo do desnível.

O coração batia tão depressa que ele mal conseguia respirar.

"Marta!", Davi gritou.

A mulher continuou avançando.

Davi deu um passo instintivo, mas parou quando Dant ergueu a mão.

"Fica aí!"

Dant se afastou da borda com cuidado.

"Ela não tá vendo você. Tá vendo o que aconteceu!"

Davi apertou as flores.

"Marta! Sou eu!"

A mulher parou por um instante.

A água começou a escorrer de suas mãos.

"Ele não consegue sair."

A voz foi quase um sussurro.

Davi começou a chorar.

"Eu saí, Marta!"

O vento aumentou.

As luzes da rua pareceram enfraquecer.

Dant ouviu novamente o som impossível da correnteza.

Mas não se moveu.

"Eu saí!", Davi gritou. "Um homem me puxou mais adiante. Você me salvou!"

A mulher virou a cabeça lentamente.

Seus olhos encontraram os de Davi.

Pela primeira vez, pareceu enxergar alguma coisa que não pertencia àquela noite de chuva.

Davi abriu a sacola e tirou uma fotografia dobrada.

Era uma imagem antiga dos dois irmãos diante da casa onde haviam morado.

"Olha pra mim."

A voz dele tremia.

"Eu cresci. Tive minha vida. Tenho uma filha. Ela já conhece sua história."

Marta olhou para a fotografia.

O vestido continuava molhado, mas a água já não escorria de seus cabelos.

Dant permaneceu imóvel.

Não sabia se estava funcionando.

Não sabia sequer se Marta compreendia as palavras ou apenas reconhecia a voz.

Ela ergueu a mão.

"Você..."

A voz parecia menos distante.

Davi deu um sorriso entre lágrimas.

"Sou eu."

A mulher olhou para as próprias mãos.

Depois para a rua, para as casas, para as luzes que não existiam no mundo de que se lembrava.

Seu rosto mudou.

Não porque tivesse se tornado outra coisa.

Mas porque a expressão de desespero começou, lentamente, a desaparecer.

"Você saiu?"

Davi assentiu.

"Saí."

Marta fechou os olhos.

Dant sentiu o perfume de cravos enfraquecer.

A mulher voltou a olhar para o irmão.

Havia uma tristeza imensa naquela expressão, mas também alguma coisa que Dant não conseguia definir.

Talvez alívio.

Talvez a compreensão de que seu último esforço não havia sido inútil.

Davi estendeu a fotografia.

"Eu nunca esqueci você."

Marta não tocou o papel.

Apenas olhou para ele.

Depois, pela primeira vez desde que Dant a encontrara, deixou de observar a passagem de água.

Seu olhar acompanhou a rua iluminada, como se finalmente percebesse que não precisava continuar procurando um carro.

Não havia mais ninguém a socorrer naquela noite.

Uma rajada de vento atravessou a calçada.

As flores nas mãos de Davi se agitaram.

A figura de Marta perdeu nitidez.

Por um instante, Dant viu a jovem da fotografia antiga, sem a água, sem o barro e sem o medo.

Ela pareceu sorrir.

Então desapareceu.

Não houve grito.

Nenhuma explosão de luz.

O perfume das flores se dissolveu no ar.

E o silêncio que ficou não parecia ameaçador.

Davi permaneceu olhando para o lugar vazio.

"Ela foi embora?"

Dant demorou a responder.

"Eu acho que sim."

Davi respirou fundo.

"Você acha que ela tá em paz?"

Dant olhou para a passagem escura do canal.

Não sabia o que existia depois da morte. Nenhuma das páginas que pesquisara podia lhe oferecer uma resposta confiável.

"Espero que esteja."

Davi se abaixou e deixou os cravos junto ao canteiro, longe da abertura.

Dant o acompanhou até um trecho mais movimentado, onde o homem encontraria transporte para casa.

Só depois voltou ao carro.

Aurora o recebeu com uma sequência de movimentos agitados da cauda.

"Calma, menina. Eu tô aqui."

Dant abriu a porta traseira e verificou se ela estava bem.

A cachorrinha cheirou sua mão arranhada, soltou um pequeno ganido e tentou lamber seus dedos.

"É. Você me avisou."

Ele fez um carinho atrás das orelhas dela.

"Hoje a gente teve sorte."

Depois da meia-noite

Dois dias depois, Dant voltou à região durante a manhã.

A sinalização da passagem havia sido reforçada, e o trecho perigoso permanecia isolado para reparos. O risco físico ainda exigia atenção, mas ao menos estava visível para quem transitasse ali.

Não surgiram novos relatos de aparições naquela área durante os dias seguintes.

Dant também não encontrou indícios de que a mulher de branco tivesse voltado a abordar motoristas.

Isso não bastava para provar que Marta havia alcançado algum tipo de pós-vida.

Ele sabia.

Mas era o melhor sinal de que sua tentativa havia funcionado.

Sentado num banco próximo a uma das avenidas do conjunto, abriu o caderno e releu as anotações.

Na primeira página, havia escrito:

Possível fantasma. Duas mortes. Investigar como enfrentar.

Riscou a última frase.

Embaixo, anotou:

Antes de combater, descobrir o que a presença está tentando fazer.

Ficou olhando para aquelas palavras.

Sua primeira investigação independente terminara sem uma luta.

Não havia usado o sal, o ferro ou qualquer arma.

Também não conseguira salvar os homens que morreram antes de sua chegada. Essa parte do caso continuava pesando.

E, se Aurora não tivesse latido na hora certa, talvez ele próprio tivesse acabado ferido gravemente.

Babizinha provavelmente teria muito a dizer sobre os riscos que assumira.

Dant imaginou a expressão preocupada dela ao ver sua mão machucada e o estado das roupas depois daquela noite.

Sorriu discretamente.

Ainda queria contar o que havia acontecido.

Mas não naquele momento.

Guardou o caderno.

Aurora levantou a cabeça ao perceber que ele se preparava para ir embora.

"Vamos pra casa?"

Ela se levantou antes que ele terminasse a pergunta.

Dant se afastou do banco e lançou um último olhar para a rua.

O Augusto Franco continuava o mesmo lugar movimentado, cheio de gente seguindo suas rotinas.

Talvez alguns moradores ainda contassem histórias sobre a mulher loira que surgia nos carros à noite.

Talvez o nome de Marta Almeida continuasse esquecido por quase todos.

Mas Davi sabia o que acontecera.

E, por enquanto, aquilo parecia suficiente.

Enquanto caminhava com Aurora, Dant percebeu que a primeira caçada havia lhe ensinado algo que nenhum dos treinamentos anteriores conseguira demonstrar tão claramente.

O sobrenatural nem sempre apareceria diante dele como uma criatura pronta para atacar.

Às vezes, viria como alguém preso ao pior instante da própria existência.

E, nesses casos, o desafio não seria sobreviver ao encontro.

Seria descobrir como terminar uma história que a morte havia interrompido.

Aurora puxou suavemente a guia, interessada no cheiro que vinha de uma barraca de comida.

Dant olhou para ela.

"Depois de tudo isso, você só quer saber de comer?"

A cachorrinha continuou farejando.

Ele riu.

"Tá bom. Eu também."

E os dois seguiram pela calçada, enquanto Aracaju continuava vivendo mais um dia comum.

Pelo menos até a próxima notícia.

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