"A primeira criatura que estudei foi a que me deixou vivo por um motivo que ainda desconheço. Não vou cometer o erro de achar que conheço todas as outras."
ARQUIVO 001 | LOBISOMEM
Caderno de campo de Dant. Estado: investigação aberta. Classificação: ameaça variável, possivelmente uma pessoa sob transformação. Uso três marcas: [REGISTRO] para documentos e tradições consultados, [CAMPO] para o que presenciei e [HIPÓTESE] para o que ainda precisa ser testado. Uma lenda pode indicar onde procurar; não é prova de que um método funcione.
1. A noite em Simão Dias
[CAMPO] Eu havia saído de Aracaju para passar quatro dias numa festa em Simão Dias, no interior de Sergipe. Na última noite, voltando sozinho à pousada por uma rua lateral, encontrei uma criatura perto de um terreno murado e de um antigo depósito. Ela caminhava ereta, tinha pelos, garras e traços de lobo misturados a um rosto assustadoramente humano. Foi rápida demais. Fui ferido e mordido no ombro esquerdo.
Babizinha chegou, prestou socorro e conseguiu ajuda. O agressor fugiu quando outras pessoas se aproximaram. Ela é enfermeira, aprendeu a investigar criaturas com o avô e depois me ensinou a sobreviver às minhas próprias investigações. A mordida foi seguida, mais tarde, por uma transformação em mim. Sei que existe uma ligação entre os acontecimentos do meu caso; não sei se toda mordida transmite a condição, nem o que desencadeia cada mudança.
Havia lua cheia. Isso descreve aquela noite, não uma lei da natureza. Aurora também não testemunhou o ataque: Babizinha só me deu a cachorrinha, ainda filhote, meses depois. O lobisomem que me atacou continua sem nome e sem paradeiro conhecido.
2. De onde vem a lenda
[REGISTRO] Não encontrei um lugar único onde o lobisomem tenha nascido. Heródoto, no século V a.C., registrou o que outros diziam dos neuri, povo que supostamente virava lobo por alguns dias do ano. Ele próprio demonstrou desconfiança. Ovídio contou a transformação de Licaão em lobo como castigo divino. Nenhum dos dois estabeleceu a mordida como regra de contágio.
No Satíricon, de Petrônio, um soldado tira as roupas, transforma-se em lobo e reaparece ferido no mesmo lugar em que o animal teria sido atingido. É uma história literária, mas oferece duas pistas recorrentes: vestimentas e ferimentos. Já em Bisclavret, de Marie de France, um homem conserva entendimento humano enquanto está na forma de lobo; suas roupas têm importância para o retorno. Isso contraria a ideia de que toda transformação apaga a pessoa.
A Europa também produziu processos contra acusados de licantropia. O caso de Thiess, na Livônia do século XVII, é incomum: ele dizia que lobisomens protegiam colheitas. Um depoimento histórico comprova que alguém afirmou aquilo, não que o fenômeno tenha sido demonstrado. Anoto a diferença, porque uma acusação pode destruir uma vida mesmo quando nenhuma criatura foi encontrada.
3. Portugal, Brasil e outras formas
[REGISTRO] Em recolhas portuguesas, como as de Consiglieri Pedroso, o condenado nem sempre vira lobo: pode assumir forma de cão, burro ou bode, percorrer caminhos determinados e carregar um fado ou fadário. No Brasil, o repertório ibérico ganhou versões regionais. Há histórias ligadas ao nascimento, a maldições familiares, a saídas noturnas e a corpos semelhantes a cães, porcos ou misturas de animais. Pereira da Costa registrou tradições pernambucanas em que latidos anunciam a passagem de uma criatura.
Na região do Prata, o Luisón ou lobizón aparece em narrativas que incluem o sétimo filho e formas caninas. Não tomo esses seres como idênticos ao meu agressor. Também não confundo um lobo-guará, animal silvestre real do Brasil, com qualquer descrição sobrenatural. A palavra lobisomem reúne relatos demais para que um único desenho resolva todos eles.
4. Aparições e pistas de rastreamento
[REGISTRO] Entre os casos escritos há o soldado-lobo de Petrônio, o lobo que conserva a razão em Bisclavret e os depoimentos europeus sobre transformações. Na França, os ataques da Besta de Gévaudan, entre 1764 e 1767, deixaram mortes registradas; nunca provaram que o animal fosse um homem transformado. [CAMPO] Meu único confronto direto documentado neste caderno continua sendo Simão Dias. Não vou apresentar lendas antigas como entrevistas feitas por mim.
[HIPÓTESE] Uma criatura física pode deixar rastros: cercas danificadas, marcas no barro, sangue, pelos, objetos deslocados e sons. Mas cães, porcos, pessoas, animais silvestres e acidentes deixam sinais parecidos. Investigo a sequência, não uma pegada isolada. Escuto testemunhas separadamente, comparo horário, iluminação, distância e fases da lua, procuro contradições e examino o local durante o dia antes de voltar à noite.
Aurora percebe cheiros e movimentos que posso perder, mas não identifica lobisomens por milagre. Se ela se assusta ou recua, eu a retiro. Nunca será isca. Latidos em uma cidade podem indicar muitas coisas; não são um veredito. Também evito transformar aparência cansada, palidez ou comportamento estranho de moradores em suspeita de maldição. Um caçador que persegue pessoas por boatos é um perigo maior que a história que ouviu.
5. Fraquezas, cura e formas de enfrentar
É aqui que meus registros ficam mais perigosos. Preciso separar três perguntas: o que afasta a criatura, o que desfaz a transformação e o que pode matá-la? Os relatos frequentemente confundem as respostas.
[REGISTRO] A prata, sobretudo a bala de prata, tornou-se célebre nas versões modernas do lobisomem. Tradições brasileiras mencionam projéteis associados à cera de velas de cerimônias religiosas. Outras versões dizem que um ferimento e o sangue derramado podem quebrar o encanto; certas histórias contradizem isso e dizem que a maldição pode passar a quem fere. Em Bisclavret, recuperar as roupas é parte do retorno à forma humana. Orações e bênçãos aparecem em alguns relatos locais. Fogo, acônito e decapitação também circulam em adaptações, mas não possuo prova de eficácia em meu caso; fogo e acônito são perigosos por si mesmos.
[CAMPO] Não vi prata, bênçãos nem qualquer golpe mortal deter meu agressor. Vi apenas que ele fugiu quando pessoas se aproximaram. Não sei se foi medo, cálculo ou outra razão. Nenhuma fraqueza está confirmada para o caso SD-01. Ferir alguém para testar uma tradição não é pesquisa; é crueldade. E matar uma criatura que poderia recuperar sua consciência seria um erro impossível de desfazer.
Meu protocolo começa antes do confronto: confirmar a ameaça, tirar moradores e animais da área, garantir retirada e socorro. Se o ser responder, hesitar ou reconhecer alguém, tento interromper a agressão sem morte e procuro entender a condição. Se não houver saída e vidas estiverem em risco imediato, a eliminação poderá ser necessária, mas não vou prometer um método infalível que nunca testei. Depois, registro o resultado. Sem identificação e evidência, não escrevo “criatura morta” para encerrar uma página.
6. O que ainda preciso descobrir
[CAMPO] A mordida foi seguida pela minha transformação, mas o mecanismo continua desconhecido. Não determinei gatilho, duração, memória, controle ou cura universais. Outros relatos atribuem a condição a castigo, nascimento, pacto ou objetos encantados. Talvez o mesmo nome esconda naturezas diferentes. Ainda preciso saber quem me atacou em Simão Dias e por que Babizinha decidiu me salvar quando eu próprio passei a carregar aquilo que ela caçava.
Fontes anotadas no caderno: Heródoto, Histórias, IV.105; Ovídio, Metamorfoses, I; Petrônio, Satíricon; Marie de France, Bisclavret; Consiglieri Pedroso, Contribuições para uma mitologia popular portuguesa; F. A. Pereira da Costa, Folclore pernambucano; registros históricos de Thiess e da Besta de Gévaudan. São fontes para conhecer os relatos, não certificados de que cada criatura existiu.
"Se eu precisar matar um lobisomem para impedir uma morte, quero saber que não havia alternativa. Antes disso, preciso lembrar: fui salvo quando alguém poderia ter me tratado apenas como um monstro."




