EpisódiosDant15 min de leitura

A Quarta Noite

Dant viaja de Aracaju a Simão Dias para quatro dias de festa. Um encontro aterrorizante numa rua escura muda seu destino para sempre.

Dant, de jaqueta escura, observa uma rua deserta entre a festa iluminada e a lua cheia, com uma igreja ao fundo.
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Dant ainda conseguia lembrar do cheiro.

Não era o cheiro de sangue, embora tivesse perdido bastante naquela noite. Nem o da terra úmida, que grudara em suas roupas enquanto tentava fugir.

Era o cheiro da criatura.

Uma mistura de pelo molhado, carne apodrecida e alguma coisa que ele nunca conseguiu descrever.

Anos depois, ainda acordava de madrugada com a sensação daqueles dentes atravessando seu ombro.

Tudo havia começado com uma viagem que deveria ter sido apenas diversão.

Na época, Dant morava em Aracaju, Sergipe, e levava uma vida perfeitamente comum. Trabalhava, encontrava os amigos quando podia e reclamava dos mesmos problemas que qualquer pessoa da sua idade.

Não acreditava em fantasmas, assombrações ou monstros. Para ele, lobisomens pertenciam às histórias que os mais velhos contavam para assustar crianças.

Quando soube que haveria uma festa em Simão Dias, município do interior sergipano, decidiu aproveitar alguns dias de folga.

Reservou quatro noites numa pequena pousada da cidade. Pretendia conhecer o lugar, aproveitar a música, comer bem e esquecer as preocupações.

Saiu de Aracaju pela manhã e chegou a Simão Dias no começo da tarde.

A pousada ficava numa rua relativamente tranquila, a poucos minutos do centro. O quarto era simples, com uma cama, um guarda-roupa antigo e uma janela voltada para os telhados das casas vizinhas.

Depois de guardar a bagagem, Dant saiu para conhecer a cidade.

A Praça Barão de Santa Rosa estava movimentada. Barracas vendiam espetinhos, milho assado e bebidas geladas. Perto da igreja matriz, famílias conversavam enquanto crianças corriam entre os bancos.

Um palco havia sido montado para as apresentações da festa.

Dant gostou do ambiente imediatamente.

Na primeira noite, dançou, conversou com desconhecidos e voltou à pousada quase ao amanhecer.

Na segunda, conheceu mais algumas ruas e experimentou praticamente tudo que encontrou nas barracas.

Foi na terceira noite que ouviu a primeira história estranha.

Estava esperando seu pedido numa barraca quando percebeu dois homens conversando em voz baixa.

"Encontraram outro bicho morto lá perto da estrada."

"O de seu Antônio?"

"Esse mesmo. O pescoço estava todo rasgado."

"Deve ter sido cachorro-do-mato."

"Rapaz, cachorro nenhum faz uma coisa daquelas."

Dant ouviu a conversa sem dar muita importância.

Naquele momento, sua maior preocupação era saber quanto tempo faltava para a comida ficar pronta.

Mas, quando voltou à pousada, percebeu algo curioso.

Os cachorros da vizinhança latiam sem parar.

Todos pareciam voltados para a mesma direção, onde as últimas casas davam lugar a terrenos mais abertos.

Acima dos telhados, a lua cheia iluminava as ruas.

Dant fechou a janela e foi dormir.

Não fazia ideia de que aquela seria sua última noite de sono tranquilo por muito tempo.

A última noite da festa

O quarto dia chegou com o calor habitual do interior.

Dant passou a manhã descansando, saiu para almoçar e voltou à pousada durante a tarde.

O movimento da festa estava ainda maior naquela noite. Era o encerramento, e ele queria aproveitar até o último instante.

O céu estava limpo. A lua, ainda praticamente cheia, aparecia enorme sobre as casas.

Perto da meia-noite, a música continuava alta e as barracas estavam lotadas.

Dant comprou uma água, conversou com algumas pessoas e decidiu voltar sozinho para a pousada.

Havia aprendido um caminho mais curto durante os dias anteriores. Uma rua lateral passava por alguns imóveis antigos e desembocava perto de onde estava hospedado.

Seguiu por ali.

A cada passo, o barulho da festa diminuía.

Primeiro desapareceram as vozes. Depois, a música se tornou apenas uma batida distante.

Foi então que ouviu um som.

Parecia alguém gemendo.

Dant parou e olhou para trás. Não havia ninguém.

O gemido veio novamente, desta vez de um terreno cercado por um muro baixo, ao lado de um antigo depósito.

"Tem alguém aí?"

Nenhuma resposta.

Ele acendeu a lanterna do celular e se aproximou.

O portão de metal estava entreaberto.

No chão, havia marcas compridas, como se alguma coisa pesada tivesse sido arrastada pela terra.

Então sentiu o cheiro.

Aquele cheiro que nunca esqueceria.

"Alô! Tá precisando de ajuda?"

Alguma coisa se moveu atrás do depósito.

Dant iluminou o espaço entre a parede e algumas árvores.

Dois olhos refletiram a luz.

A princípio, pensou que fosse um cachorro grande.

Mas o animal começou a se erguer.

E continuou subindo.

A criatura era maior que qualquer homem que Dant conhecera. Tinha ombros largos, braços compridos cobertos por pelos escuros e uma cabeça que lembrava a de um lobo.

A boca se abriu lentamente, mostrando dentes compridos e irregulares.

O pior não era sua aparência.

Era a maneira como observava Dant.

Havia alguma coisa assustadoramente humana naquele olhar.

Dant recuou.

"Meu Deus..."

A criatura soltou um rosnado grave.

Ele virou para correr.

Não conseguiu dar três passos.

Uma pancada violentíssima o atingiu pelas costas, jogando-o contra o chão. O celular escapou de sua mão e deslizou pela terra.

Dant tentou se levantar, mas uma garra rasgou sua camisa e atravessou a pele perto do ombro.

A dor o fez gritar.

Ele se debateu, acertou um golpe no focinho da criatura e conseguiu se virar parcialmente.

Foi quando os dentes se fecharam sobre seu ombro esquerdo.

O mundo pareceu desaparecer.

A mordida trouxe uma dor diferente de qualquer outra que já sentira, como se algo quente estivesse sendo empurrado para dentro de seus ossos.

Dant tentou gritar novamente, mas quase não tinha ar.

A criatura o pressionou contra o chão.

Ele viu as presas manchadas de sangue se aproximarem de seu rosto.

Acreditou que fosse morrer.

Então ouviu uma voz feminina.

"Ei! Sai de perto dele!"

Uma luz forte atingiu a criatura.

Mais adiante, vozes começaram a se aproximar.

"É por aqui! Chamem ajuda!"

O lobisomem ergueu a cabeça.

Por alguns segundos, pareceu dividido entre terminar o ataque e fugir.

Quando percebeu que várias pessoas estavam chegando, soltou Dant.

Com um salto, atravessou o terreno e desapareceu na escuridão, além do muro.

Dant tentou acompanhar seu movimento, mas a visão estava ficando turva.

Uma mulher se ajoelhou ao seu lado.

Tinha cabelos escuros até os ombros, óculos de armação fina e uma lanterna presa à mão.

"Olha pra mim. Consegue me ouvir?"

Dant tentou responder.

"O... cachorro..."

A mulher examinou rapidamente seus ferimentos. Retirou material de primeiros socorros de uma bolsa e pressionou uma compressa contra o local que sangrava mais.

"Não foi um cachorro."

Dant arregalou os olhos.

"Você viu?"

"Vi o suficiente."

Ele tentou se erguer.

"Que coisa era aquela?"

Ela o segurou com firmeza, impedindo que piorasse o ferimento.

"Agora você precisa continuar acordado. Depois a gente conversa."

Dant ouviu alguém dizer que a ambulância estava a caminho.

Antes de perder a consciência, conseguiu fazer uma última pergunta.

"Quem é você?"

A mulher aproximou o rosto para que ele pudesse ouvi-la.

"Babizinha. Meu nome é Babizinha."

Foi a última coisa que escutou.

A mulher que conhecia os monstros

Quando Dant abriu os olhos, estava no hospital.

O ombro doía tanto que qualquer movimento parecia uma péssima ideia.

Havia recebido atendimento, cuidados para os ferimentos e avaliação dos riscos de uma mordida de animal desconhecido.

Mas o que realmente o incomodava não era a dor.

Era a lembrança do que o atacara.

A criatura andando sobre duas pernas. As garras. Os dentes. O olhar.

Não tinha sido um sonho.

Na tarde seguinte, Babizinha apareceu.

Agora vestia roupas comuns. Trazia uma pequena bolsa e uma expressão séria.

"Como está o ombro?"

"Como se um caminhão tivesse passado por cima."

"Pelo menos seu humor sobreviveu."

Dant observou a mulher por alguns instantes.

"Você sabia o que era aquilo."

Babizinha puxou uma cadeira.

"Sabia."

"Então me explica."

Ela demorou a responder.

"Você foi atacado por um lobisomem, Dant."

Ele soltou uma risada nervosa, que terminou numa careta de dor.

"Tá brincando comigo?"

"Queria estar."

"Isso não existe."

Babizinha olhou para o ombro enfaixado.

"Você quer mesmo discutir isso depois do que viu?"

Dant ficou em silêncio.

A lembrança da mordida voltara com tanta força que ele sentiu o estômago se contrair.

"Por que você estava lá?"

"Eu estava seguindo aquela coisa. Fazia noites que ela rondava a cidade. Primeiro atacou animais. Depois começou a chegar perto das casas."

"Você é policial?"

"Sou enfermeira."

Dant franziu a testa.

"Enfermeira?"

"Durante o dia."

"E à noite?"

Babizinha respirou fundo.

"À noite, eu caço as coisas que a maioria das pessoas acha que não existem."

Dant ficou olhando para ela.

Se alguém tivesse contado aquela história uma semana antes, ele teria dado risada.

Mas havia marcas de dentes em seu próprio corpo.

"Como você sabe fazer isso?"

"Meu avô me ensinou. Ele passou muitos anos enfrentando criaturas que apareciam por aqui. Cresci ouvindo histórias que, depois de um tempo, descobri que eram verdadeiras."

Ela abaixou os olhos por um instante.

"Quando ele já não podia mais sair para caçar, eu continuei."

Dant tentou assimilar tudo.

"Então você matou aquele bicho?"

"Não. Ele fugiu quando as pessoas se aproximaram."

"Pode voltar?"

"Pode."

A resposta não trouxe nenhum conforto.

Babizinha se inclinou um pouco para a frente.

"E tem outra coisa que você precisa saber."

Dant percebeu a mudança no tom da voz dela.

"O quê?"

Ela olhou novamente para a faixa em seu ombro.

"Aquela mordida não deixou só um ferimento."

Um silêncio pesado tomou conta do quarto.

"Do que você está falando?"

Babizinha demorou um instante antes de responder.

"Existe uma maldição ligada a certas mordidas de lobisomem. E eu acredito que você foi contaminado por ela."

Dant balançou a cabeça.

"Não. Você está dizendo que eu vou virar aquilo?"

"Estou dizendo que precisamos descobrir o que vai acontecer com você."

Ele tentou se levantar da cama, apesar da dor.

"Eu só vim passar quatro dias numa festa!"

Babizinha o ajudou a se acomodar novamente.

"Eu sei."

"Eu tenho uma vida em Aracaju! Tenho trabalho, amigos... Eu não pedi nada disso!"

"Eu sei, Dant."

"Então tira isso de mim!"

Ela permaneceu em silêncio.

E foi naquele silêncio que ele compreendeu.

Babizinha não sabia como desfazer a maldição.

Aprendendo a sobreviver

Os quatro dias de viagem se transformaram em semanas.

Dant prolongou sua permanência em Simão Dias para se recuperar. Babizinha acompanhou os cuidados com os ferimentos e, quando ele recebeu alta, continuou ajudando com curativos, orientações e retornos médicos.

Aos poucos, a pele cicatrizou.

Mas outras coisas começaram a acontecer.

Certos ruídos pareciam altos demais. Alguns cheiros o incomodavam de uma maneira que nunca havia experimentado.

Havia noites em que acordava com o coração disparado, tomado por uma inquietação que não conseguia explicar.

Babizinha registrava tudo num caderno.

Não fingia conhecer todas as respostas.

O avô deixara anotações, relatos e advertências, mas nem mesmo ele compreendia completamente aquela maldição.

"Você precisa aprender a reconhecer quando alguma coisa está mudando", ela explicou numa tarde.

"Como?"

"Presta atenção no seu corpo. Anota o que sente, quando sente e o que aconteceu antes. E nunca esconda de mim se achar que pode machucar alguém."

Dant fechou o caderno.

"E se eu me transformar?"

"Vamos preparar um lugar seguro, longe de outras pessoas, até entendermos melhor o que você consegue controlar."

"E se eu não conseguir?"

Babizinha sustentou seu olhar.

"Então vou fazer o necessário para impedir que alguém se machuque."

Ele percebeu que ela não estava fazendo uma promessa vazia.

Naquela noite, pela primeira vez, teve medo não de morrer, mas de continuar vivo.

Nas semanas seguintes, Dant voltou a Aracaju, mas passou a viajar frequentemente para Simão Dias.

Babizinha começou a treiná-lo.

Primeiro vieram as lições simples.

Como observar marcas no chão. Como reconhecer quando uma pegada não combinava com o animal que supostamente a deixara. Como identificar sinais de luta, investigar relatos e procurar testemunhas sem assustá-las.

Ela o ensinou a prestar primeiros socorros, manter uma rota de saída e nunca entrar sozinho num lugar desconhecido apenas porque ouvira um barulho.

Na primeira noite de treinamento, Dant levou uma lanterna e um pedaço de madeira que encontrara perto de uma cerca.

Babizinha olhou para o improviso.

"O que você pretende fazer com isso?"

"Me defender."

"De quê?"

"Sei lá. De um monstro."

"E se o monstro for mais rápido e mais forte que você?"

Dant examinou o pedaço de madeira.

"Eu acho que vou precisar de uma ideia melhor."

"Agora você está começando a aprender."

Ela também lhe ensinou uma lição que ele nunca esqueceu: nem toda criatura sobrenatural precisava morrer.

Algumas eram perigosas. Outras estavam assustadas, perdidas ou apenas tentando sobreviver.

Antes de atacar, era preciso descobrir com o que se estava lidando.

Dant passou a acompanhar Babizinha em investigações pequenas. No começo, observava mais do que ajudava. Cometeu erros, confundiu rastros e, numa ocasião, quase caiu dentro de uma cisterna abandonada por não prestar atenção onde pisava.

Babizinha o puxou pela camisa a tempo.

"Você olha tanto para a escuridão que esquece do chão."

"É porque normalmente o monstro não está no chão."

"Você ficaria surpreso."

Aos poucos, o medo começou a dividir espaço com outra coisa.

Determinação.

Dant queria encontrar o lobisomem que o atacara. Queria descobrir quem ele era e por que estava rondando a cidade.

Mas também queria impedir que outras pessoas passassem pelo mesmo sofrimento.

A primeira vez que acompanhou Babizinha numa busca de verdade, encontraram sinais recentes da criatura perto de uma propriedade afastada.

Seguiram os rastros até um trecho de vegetação, onde perceberam que eles voltavam na direção de casas habitadas.

Dant sugeriu continuar perseguindo o animal.

Babizinha apontou para uma residência próxima, onde havia luz acesa.

"E se ele der a volta enquanto a gente estiver no mato?"

Dant entendeu.

Eles avisaram discretamente os moradores sobre um animal perigoso, ajudaram a manter as pessoas dentro de casa e vigiaram as possíveis passagens até o amanhecer.

Não encontraram o lobisomem naquela noite.

Mas ninguém foi atacado.

Dant voltou frustrado, até Babizinha perguntar:

"Quantas pessoas você acha que precisam sobreviver para uma caçada ter valido a pena?"

Ele não soube responder.

Depois daquela noite, nunca mais confundiu caçar com simplesmente matar.

A primeira transformação

A maldição não permaneceu silenciosa.

Numa noite, semanas depois do ataque, Dant sentiu uma dor intensa percorrer os braços e as costas.

Estava no local afastado que ele e Babizinha haviam preparado para observar as possíveis mudanças, com portas reforçadas e ninguém por perto além dela, que permanecia do lado de fora.

A princípio, pensou que estivesse tendo outra crise de dor.

Então viu suas mãos.

Os dedos se contraíram. As unhas se alongaram. Pelos escuros começaram a surgir sobre a pele.

Dant tentou chamar Babizinha.

Mas sua voz saiu deformada.

Seu corpo mudou diante dos próprios olhos.

Quando conseguiu enxergar o reflexo numa pequena janela, viu o rosto de uma criatura com orelhas lupinas, presas e pelos, mas ainda reconheceu alguma coisa de si mesmo naquele olhar.

O desespero quase o fez avançar contra a porta.

Do lado de fora, ouviu Babizinha.

"Dant! Escuta minha voz!"

Ele se virou.

"Você está me ouvindo?"

A criatura respirava pesadamente.

Dant não sabia quanto tempo passou naquela forma. Suas lembranças daquela noite ficaram incompletas, misturadas à dor, ao medo e à voz de Babizinha chamando seu nome.

Quando voltou a si, estava exausto, caído no chão.

A porta continuava fechada.

Babizinha esperava do outro lado.

Ele demorou a conseguir falar.

"Eu virei um monstro."

Ela abriu a porta somente depois de verificar que a transformação havia terminado e se ajoelhou perto dele.

"Você voltou, Dant."

"Mas eu virei aquilo."

"Eu vi."

Ele olhou para as próprias mãos, agora humanas.

"Você não ficou com medo?"

Babizinha hesitou.

"Fiquei."

"Então por que não foi embora?"

Ela permaneceu ao seu lado.

"Porque você precisava de ajuda."

Dant guardou aquela resposta.

Mas nunca conseguiu acreditar que fosse a resposta inteira.

O presente de Babizinha

Meses depois da viagem que deveria ter durado apenas quatro dias, Dant já não era a mesma pessoa.

Continuava morando em Aracaju, mas agora sua vida também incluía pesquisas, rastreamentos, treinamentos e noites em que precisava tomar precauções que jamais imaginara.

A maldição ainda guardava muitos mistérios.

Ele não tinha domínio completo sobre o que acontecia com seu corpo, e Babizinha nunca prometera que teria.

Ainda assim, havia conseguido continuar vivendo.

Numa tarde, depois de um treinamento, Babizinha apareceu carregando uma pequena cachorrinha.

Era uma filhote de pelos brancos, manchas caramelo e orelhas caídas.

Dant observou o animalzinho se debatendo alegremente nos braços dela.

"O que é isso?"

"Uma cachorra, Dant."

"Obrigado pela informação. Eu estava achando que era um jacaré."

Babizinha riu.

"Ela precisa de alguém que cuide dela."

"E você pensou em mim?"

"Pensei."

A filhote foi colocada no chão. Cheirou os sapatos de Dant, tentou morder um cadarço e depois se sentou sobre um dos pés dele.

"Ela parece ter me escolhido."

"Ou gostou do cheiro do seu tênis."

Dant se abaixou e acariciou a cabeça da cachorrinha.

"Como é o nome dela?"

"Aurora."

A pequena levantou o focinho ao ouvir a voz de Babizinha.

Dant sorriu.

"Oi, Aurora."

A filhote tentou subir em seu colo.

Naquele instante, ele sentiu uma alegria simples, coisa que não experimentava havia muito tempo.

Babizinha se sentou ao seu lado.

"Ela não vai resolver seus problemas, Dant. Vai precisar de comida, cuidados, passeios e muita paciência."

"Você está tentando me dar uma responsabilidade?"

"Estou te dando uma amiga."

Dant olhou para Aurora.

Pela primeira vez desde a mordida, conseguiu imaginar um futuro que não fosse feito apenas de medo.

E decidiu que, enquanto tivesse forças, usaria o que aprendera para proteger pessoas que sequer sabiam que precisavam ser protegidas.

Não se tornou caçador porque gostava de enfrentar monstros.

Tornou-se caçador porque conhecia o terror de estar indefeso diante de um deles.

E porque alguém o salvara quando poderia simplesmente tê-lo abandonado.

A pergunta que nunca desapareceu

Até hoje, Dant se lembrava daquela noite em Simão Dias.

Da música distante da festa.

Da lua sobre os telhados.

Dos dentes atravessando seu ombro.

E de Babizinha ajoelhada ao seu lado, tentando impedir que ele morresse.

Com o tempo, aprendeu a reconhecer muitas criaturas. Enfrentou perigos que antes consideraria impossíveis e descobriu que o sobrenatural estava mais próximo das pessoas do que qualquer um gostaria de acreditar.

Mas havia uma pergunta que nunca conseguiu esquecer.

Babizinha fora criada por um caçador. Sabia o que aquela mordida podia significar. Sabia que Dant poderia se transformar numa criatura tão perigosa quanto aquela que o atacara.

Mesmo assim, salvou sua vida.

Cuidou de seus ferimentos.

Ensinou-o a lutar.

E confiou a ele uma pequena cachorrinha que se tornaria sua companheira inseparável.

Dant nunca entendeu completamente por que ela fizera tudo aquilo.

Às vezes, pensava em perguntar.

Em outras, tinha medo da resposta.

Porque, naquela última noite de lua cheia em Simão Dias, Babizinha não apenas salvara um desconhecido.

Ela escolhera dar uma chance a alguém que poderia se tornar exatamente aquilo que passara a vida caçando.

E Dant ainda não sabia se, no lugar dela, teria feito o mesmo.

Foi assim que tudo começou.

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